Vale ter uma mirrorless hoje?

Não é de hoje que as câmeras mirrorless são comentadas, mas…

Baseado no artigo “DSLR vs Mirrorless” de Nasim Mansurov (no Photography Life), traduzido por mim no Fotografia DG

 

As mirrorless estão aí pra ficar, tenho cada vez mais certeza disso. Calma, não estou dizendo que mês que vem você terá trocado todo um equipamento baseado em câmera DSLR por um sistema menos tradicional de marca bem menos utilizada no mercado. O fato é que as câmeras sem espelho já atingiram um ponto na evolução tecnológica em que não há mais volta: não se pode mais considerá-las um experimento, um pequeno punhado de protótipos pretensiosos, com a meta hercúlea de mudar toda uma mentalidade dominante no meio fotográfico. Seus lançamentos já passaram por várias gerações, evoluções, testes de profissionais tarimbados, aprovação de muitos e sua presença no mercado é cada vez mais notória. Mas antes de pintar um quadro que talvez soe otimista demais, vamos por partes.

 

O que é uma mirrorless

Uma mirrorless é, atendo-nos ao diferencial-chave que batiza a categoria, uma câmera sem espelho. Quem já teve aulas de anatomia de uma câmera tipo SLR (seja digital ou não) sabe que entre os componentes está um espelho que fica por trás do obturador, reflete a luz que chega através da objetiva para o visor óptico da câmera, repassando a cena para o olho de quem fotografa (com uma ajudinha do chamado pentaprisma que fica na parte de cima). Numa mirrorless os espelhos não existem, o que tem suas vantagens e desvantagens (veremos à frente).

Você já deve estar se perguntando quais as diferenças práticas entre as mirrorless e as DSLR, e porque você poderia ainda adotar uma, mesmo amando sua DSLR atual. Vamos lá…

Proporções/volume

É verdade que hoje existem DSLRs menores (a exemplo da Canon SL1) e câmeras mirrorless maiores (Hasselblad X1D, Leica SL), no entanto nota-se facilmente que elas são excepcionais, e não a regra. Além disso, sejamos justos: logo vemos que as menores DSLRs não ‘batem’ com as maiores câmeras sem espelho em termos de recursos e público-alvo.

Câmeras de proporções mais modestas não possuem necessariamente uma pegada melhor para todos fotógrafos. No entanto tanto as mirrorless possuem por vezes grips para aqueles com mãos maiores ou que simplesmente sentirem falta de um volume maior. Já uma DSLR com grip costuma ser imensa.

 

Peso

Um dos pontos mais evidentes na diferenciação entre uma DSLR e uma mirrorless. É notável o quanto experientes fotógrafos comentam da redução de dores no corpo e do cansaço, do estresse ao experimentarem câmeras sem espelho.

Se você já fotografou um evento por horas seguidas ou fez uma viagem em que teve que carregar por longas caminhadas uma DSLR, objetiva encaixada, mais outra na mochila e etc, equipo que você não achava assim tããão pesado, já deve ter percebido: meio quilo a menos ou a mais faz uma bela diferença em como você voltará para casa ou seu hotel ao final da sessão de fotos. Seja carregando no pescoço, no ombro ou apenas na mão, chega uma hora que aquele pequeno peso parece ter aumentado. Podemos nos preparar, mas os limites estarão sempre lá. Lembrem-se: o fator saúde não pode ser ignorado.

Visor (viewfinder)

Embora nem todas mirrorless possuam visor incorporado (vários modelos tem apenas um que funciona externamente), é possível citar o visor eletrônico (electronic viewfinder, ou EVF) como um diferencial das mirrorless.

Esse tipo de visor dá algumas vantagens: pré-visualização da imagem final (incluindo exposição), mais informações ao fotografar (incluindo nível para alinhamento, e personalizáveis), imagem visível mesmo sob condições difíceis, cobertura total do quadro a ser capturado (nem sempre o que ocorre nas DSLRs) e um grande auxiliar para quem utiliza objetivas manuais: o pico de foco (focus peaking), que mostra em destaque de cor o que está em foco.

 

Ruídos

Ainda que já tenham surgido câmeras DSLR com modo de disparo mais discreto, a ideia de deixá-las completamente silenciosas ainda esbarra na ruidosa ação do espelho característico dessas câmeras. Não é algo corrigível ou atualizável eletronicamente, já que é uma questão mecânica. Com uma mirrorless é possível clicar sem qualquer ruído, graças à ausência de espelho e ao prático obturador eletrônico.

 

Velocidade

Basicamente as únicas limitações das mirrorless em termos de velocidade máxima seriam a agilidade do processador e a eficiência do cartão de memória. Uma câmera com espelho precisa que este alcance mecanicamente os patamares mais altos se a fabricante quiser que ela produza mais fotos por segundo, ou não adianta ter eletrônica preparada para tal.

Existem DSLRs bastante ágeis? Sim, um exemplo é a Canon 1D X mark II e seu burst de 14fps. Um grande crescimento nessa taxa no entanto é bastante difícil sem adotar soluções puramente eletrônicas, uma especialidade entre as mirrorless. Entre essas últimas, destaca-se a recente Sony A9 com suas 20 fotos/segundo.

Pelo outro lado, o das velocidades baixas, as mirrorless possuem a vantagem de não sofrerem vibração do mecanismo do espelho, de forma que torna-se mais fácil produzir imagens firmes a velocidades reduzidas.

 

Bateria

Esse é um ponto bastante crítico para muitos fotógrafos — especialmente os que necessitam justo de maior agilidade nos disparos. Quase todos reparam que as baterias das DSLRs duram mais por carga, e um dos motivos é justamente porque estas câmeras são menos baseadas em recursos eletrônicos. Dessa forma a duração da bateria torna-se um ponto-chave para escolha entre uma câmera com ou sem espelho.

Quem tem ‘dedo pesado’ deve sentir falta de baterias mais duráveis por sessão ao usar uma mirrorless, ou virem-se obrigados a adquirir um número de baterias que antes não cogitaria; já os mais moderados podem adquirir apenas mais duas ou três e seguirem sem maiores preocupações.

 

Objetivas

É fato: entre as marcas de câmeras sem espelho existem algumas que não são criadoras de longa data no mundo da fotografia. Ainda que algumas delas já tenham adquirido certa expertise na área, e até ultrapassado concorrentes mais do que tradicionais (caso da Sony passando a Nikon), precisamos nos lembrar que fotografia não é só eletrônica e produzir imagens sem lentes é possível mas poucos seguem esse caminho mais arcaico e extremamente limitado.

Neste ponto temos três fatores a considerar: preço, proporções e, claro, qualidade óptica. O preço porque nem todos são reis e rainhas; a qualidade óptica por diferenciar uma objetiva de outra dentro do mesmo orçamento. No caso das proporções, a importância é para manter um bom balanço câmera/objetiva. Além do mais, pode-se reparar que apesar das linhas sem espelho terem iniciado-se tendo como prioridades menor peso e tamanho, hoje as marcas já não observam com tanto rigor esses pontos, então analise bem as opções nesta área e não esqueça de checar bem os dados técnicos.

 

Por que não adotar uma mirrorless?

São só flores? Não, há espinhos também.

Como já citado, as baterias nas mirrorless são um ponto fraco quase sempre lembrado. Fotógrafos cujo trabalho exige muita bateria podem ser obrigados a comprar várias baterias reservas para poder clicar todo um dia de casamento, por exemplo. Alguns teriam que possivelmente investir num grip para reduzir as trocas — frustrando quem busca imensa portabilidade nos sistemas sem espelho. Se não houver opção de objetiva mais compacta também, complica bastante a opção por uma câmera da categoria.

Outro ponto, este bastante típico do mercado brasileiro, é o dos preços elevados que dificultam a experiência com as câmeras sem espelho. Afinal quem não tem tanta certeza se adota um sistema novo obviamente não troca de vez, e manter, mesmo que por pouco tempo, ambos sistemas pode exigir um esforço financeiro bastante considerável. Juntando-se a isso temos aqui no Brasil uma manutenção autorizada mais difícil entre as marcas típicas de mirrorless. Uma forma de (tentar) minimizar essa necessidade é adotando modelos já consolidados, porém assim corre-se o risco de adotar modelos defasados tecnicamente.

Não se escapa, no entanto, do fato de o sensor das câmeras mirrorless ser mais exposto, justamente por elas não possuírem o espelho, que apesar de complicar a limpeza ajuda a proteger o sensor (ainda que também contribua com seus deslocamentos de ar a jogar poeira nele, mas…). Se você fotografa muito em praias e afins e troca de objetivas com frequência, já sabe o que isso significa.

Em suma, vale adotar uma câmera mirrorless? Pese os prós e contras, considere o que refere-se a seu caso e decida. Elas não estão ainda equivalentes em tudo, mas já é possível — e até indicado — em muitos casos adotar uma ou duas e correr pro abraço pros cliques! 😉